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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Licença poética

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Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.[1] A poesia pode fazer uso da chamada licença poética, que é a permissão para extrapolar o uso da norma culta da língua, tomando a liberdade necessária para utilizar recursos como o uso de palavras de baixo-calão, desvios da norma ortográfica que se aproximam mais da linguagem falada ou a utilização de figuras de estilo como a hipérbole ou outras que assumem o carácter "fingidor" da poesia, de acordo com a conhecida fórmula de Fernando Pessoa ("O poeta é um fingidor"). A licença poetica é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor.

Referências

  1. Help - "Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995).
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ARTE E CULTURA - Rogel Samuel



A literatura faz parte do produto geral do trabalho humano, isto é, da cultura. A cultura de um povo são suas realizações, em diversos sentidos, como as ciências e as artes. É um conjunto socialmente herdado, que de certo modo determina a vida dos indivíduos.

Para compreender a literatura (e a arte em geral) do ponto de vista cultural, há de fazer-se certas distinções e algumas observações.

Em primeiro lugar, é necessário distinguir objeto artístico de utensílio.

A arte não se pode identificar com um utensílio. A arte é gratuita, isto é, sua finalidade é quase a própria arte. A arte não deve ter finalidade, porque ela é uma finalidade em si mesma. É pois uma atividade lúdica, isto é, não tem finalidade fora de si mesma. Isto não quer dizer que a arte não sirva pra nada, mas outra coisa: foi a sociedade moderna que estabeleceu que o padrão da realidade de um determinado objeto é sua necessidade, isto é, os objetos são definidos não pelo que são, mas para o que servem. Tudo na vida social é visto com respeito a um determinado fim. Todos os produtos humanos e todas as ações humanas (o trabalho) estão assim definidos.

Entretanto há outros valores além dos que visam a um determinado fim. O visar a um determinado fim significa inserir-se no meio de produção capitalista que objetiva a satisfação de necessidades e lucro. A arte não visa um determinado fim, porque a arte expande-se no espaço da liberdade, e a liberdade é a espera de nada, ou seja, a arte não visa a nada, porque ela é em si sua própria finalidade, não a outra além dela mesma tão importante quanto ela. Isto não quer dizer que a arte não tenha outra finalidade além dela mesma (a arte pode servir, por exemplo, para educar), mas que a sua própria finalidade em si mesma já seria suficiente para justificar sua própria existência. A liberdade é a espera de nada no sentido de que vige no espaço lúdico, isto é, gratuito, que não visa nada além de si mesma.

A atividade lúdica, isto é, o jogo, é gratuito. É uma atividade que não visa a um determinado fim outro que não a própria ação. Assim como a dança não visa a outra coisa senão ao próprio movimento.

É claro que a arte (como o jogo, a dança) tem muitas finalidades práticas: serve para desenvolver o corpo e o espírito, para viver, ganhar dinheiro, ganhar fama, mudar a sociedade, desenvolver a relação entre os homens e muitos outros etcs. Mas, por melhores e mais necessárias que sejam as finalidades que poderíamos enumerar para a arte, nenhuma poderia ser melhor do que ela mesma. Ou seja: tautologicamente a arte visa a arte.

É muito antigo esse fenômeno. Já no período paleolítico, os homens pintavam, antes de saber falar. Pintavam as grutas. E não com a finalidade de enfeitar, já que muitas pinturas ficavam em lugares onde dificilmente alguém poderia ver. Por que pintavam?

A arte pode ser inteiramente gratuita, como um quadro, ou pode ser embutida num utensílio, por exemplo, um saleiro de ouro do Renascimento. Benvenuto Cellini fez um saleiro de ouro para a mesa de Francisco I com as figuras de Netuno e da Terra. Este saleiro de ouro tem pelo menos três aspectos. Em primeiro lugar é uma obra-de-arte, tem as características estéticas e formais de uma obra-de-arte renascentista. Em segundo lugar tem um certo valor material, isto é, a matéria com que foi formado tem um certo valor no mercado, a peso: o ouro. Em terceiro lugar, é um utensílio, isto é, tem um finalidade fora de si mesmo, qual seja, para portar sal á mesa. A arte, portanto, está embutida num utensílio, mas aquilo que é arte no objeto está livre daquilo que tem utilidade nele, e livre também do seu valor em ouro (poderia ter sido feito em madeira, mais barata, ou em ferro). A arte escapa, pois, do utensílio (como escapou da matéria, do metal ouro que, embora caro, não a constitui). E o aspecto artístico do saleiro continuou, desta maneira, gratuito, isto é, sem finalidade fora de si mesmo.

Gratuito, aqui, não significa não-pago. Se Celline recebeu ou não recompensa em dinheiro pelo trabalho artístico não importa, do ponto de vista estético. E mesmo do ponto de vista estético, certas obras-de-arte têm um valor inestimável, porque são irreproduzíveis. E só tem preço aquilo que se pode tornar propriedade de alguém, ou de algum museu. O problema do valor é sempre definido como valor de troca, nunca como valor artístico. Não pertence á estética o valor em dinheiro de uma obra-de-arte, mas sim de ao comércio de obras-de-arte. E saber se um artista ganha muito dinheiro com sua arte não significa que sua arte tem necessariamente grande valor artístico, mas sim que tem grande valor no mercado da arte, que nem sempre corresponde ao valor estático, mas ao valor da aceitação por parte do público. A aceitação esta que pode estar viciada pela propaganda.

A segunda distinção que devemos fazer (a primeira é entre objeto artístico e utensílio) é entre a coisa dada na natureza e o objeto criado pelo homem, ou produto. Uma pedra é um dado na natureza. Um machado de pedra é um produto, objeto feito. A cultura é o elenco dos produtos e outros feitos humanos. A coisa na natureza, pois, distingue-se do objeto do homem. E note-se que um objeto só o é para um determinado sujeito, que pensa e que o faz. A arte é, logo, um produto gratuito. Marca a passagem e o fazer da cultura, essa energia. O homem se define pelo que faz; o trabalho define o homem. O sujeito faz a realidade do objeto. Esse fazer, essa interferência vai ser chamada trabalho. Hegel percebeu que a ação do trabalho é a força motriz que impulsiona a História. È no trabalho que o homem se produz a si mesmo. O trabalho é o núcleo de onde pode ser compreendida a atividade criadora do sujeito, pois no trabalho se sente a resistência do objeto e o poder do sujeito. O trabalho permitiu ao homem conhecer-se a si mesmo, além de dominar a natureza. A compreensão do trabalho é necessária para que nós possamos compreender a literatura, como produto do trabalho humano. Pois a divisão social do trabalho criou as antigas classes sociais: através dessa divisão de classes, o trabalho passou de criador para alienador do homem.

Como o trabalho, a literatura faz uma transformação da História. A História é um processo unitário, um devir, um pôr-se, um produzir-se e reproduzir-se, implicando que o homem toma cada vez mais consciência de si mesmo como ser social.

Podemos fazer uma distinção entre labor, trabalho e ação humanos. O homem labora com o corpo. Trabalha quando produz os objetos com que cria seu mundo. E sua ação se dá entre os homens, assegura a sobrevivência; o trabalho realiza o produto; a ação e o falar faz a História. A literatura participa das três atividades.

A literatura é ação porque interfere indiretamente nas consciências, no sentido de humanizar p próprio homem. A ação de literatura atua indiretamente na consciência do leitor. A literatura é um meio convincente de ação, pois o receptor fica mais tempo diante da mensagem artística do que o receptor das outras artes, como a pintura e a música. Um romance estabeleça um alto grau de intimidade com seu leitor. O leitor demora mais tempo com ele, vive mais tempo com ele. A mensagem tem tempo para explicar-se, consolidar-se. A literatura é um discurso como o pensamento, e assim há um maior intercâmbio de formação de conceitos no texto interno do leitor.

Como elemento de cultura, a arte literária é hoje um reduto de luta que protesta contra a utilização instrumental do homem pela técnica. È um momento do espírito humano, em que o homem se redescobre como ser cultural. A literatura baseia-se na percepção da alma por si mesma e em si mesma, disse Hegel. Representa o espírito para o espírito, representando o interior e a exterioridade que sempre revela a interioridade do humano, A literatura á capaz de representar um objeto em toda a sua íntima profundidade. O espírito se objetiva para si mesmo através da fantasia da imaginação. A imaginação é pois a base geral de todas as formas artísticas, ela é a matéria sobre a qual a arte trabalha. A literatura trabalha para o desenvolvimento da intuição interior, seu objetivo é o reino do espírito humano (espírito é a interiorização da natureza). A missão da literatura, como fato cultural, é evocar a potência do espírito, tudo aquilo que nas paixões e nos sentimentos humanos nos estimula e nos comove. Estes estímulos estão a serviço da transformação da sociedade. È a emoção, a subjetividade, o principal motor de transformação social. Os estímulos artísticos estão a serviço do homem, isto é, o discurso literário, toda grande arte, é ação política.
Fonte: Manual de teoria literária, Editora Vozes, 11ª edição, páginas 7 á 11 do capítulo 1.1(capítulo escrito por Rogel Samuel, Doutor em letras e professor da UFRJ)

Eu lírico

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O Eu lírico é um termo usado dentro da literatura para demonstrar o pensamento geral daquele que está narrando o texto; A junção de todos os sentimentos, expressões, opiniões e críticas feitas pela pessoa superior ao texto, que no caso seria o narrador e/ou a pessoa central ao qual o texto está se referindo. O Eu-lírico é o "eu" que fala na poesia. É geralmente muito usado em textos de gênero lírico, que são caracterizados por não expressar, mas necessariamente, os sentimentos do autor.

Índice

Tipo Incomum

Temos um exemplo incomum, o eu lírico técnico, ou seja, quando há mais de um eu lírico no poema. Eu lírico técnico é quando há mais de um eu lírico no poema.

Significado

É quando o poeta expressa sentimentos que realmente não sentiu, tratando-se então não de seu eu real, mas de um eu poético, ou lírico. O eu lírico é a "voz" que fala no poema ou texto em prosa. Isso significa dizer que os sentimentos,idéias,emoções presentes nesses textos não são necesariamente do autor dele. O autor cria um dono para esses sentimentos.

Exemplos

Temos como exemplo o poema do poeta holandês Hendrik Marsman Herinnering aan Holland (português: Lembrança da Holanda) de 1936 encontra-se entre os mais conhecidos poemas neerlandeses.[1]
Denkend aan Holland zie ik breede rivieren traag door oneindig laagland gaan
Hendrik Marsman
Em português:
Pensando na Holanda, vejo largos rios a atravessarem lentamente as infinitas planícies
Hendrik Marsman
Neste poema, o eu-lírico demonstra o seu patriotismo e amor pelo seu país, a Holanda. O eu-lírico expressa os sentimentos do poema. Se o autor não fosse holandês, o eu-lírico seria. Muitas vezes, o autor "exporta" para o eu-lírico os seus desejos (no caso, se o autor não fosse natural da Holanda, o eu-lírico seria).

Referências

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ESTÉTICA

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Estética (do grego αισθητική ou aisthésis: percepção, sensação) é um ramo da filosofia que tem por objeto o estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte. Ela estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo, a produção das emoções pelos fenômenos estéticos, bem como: as diferentes formas de arte e da técnica artística; a ideia de obra de arte e de criação; a relação entre matérias e formas nas artes. Por outro lado, a estética também pode ocupar-se do sublime, ou da privação da beleza, ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo ridículo.[1]

Índice

Na antiguidade

Especialmente com Platão, Aristóteles e Plotino - a estética era estudada fundida com a lógica e a ética. O belo, o bom e o verdadeiro formavam uma unidade com a obra. A essência do belo seria alcançada identificando-o com o bom, tendo em conta os valores morais.[2] Na Idade Média surgiu a intenção de estudar a estética independente de outros ramos filosóficos. No âmbito do Belo, dois aspectos fundamentais podem ser particularmente destacados:
  • a estética iniciou-se como teoria que se tornava ciência normativa às custas da lógica e da moral - os valores humanos fundamentais: o verdadeiro, o bom, o belo. Centrava em certo tipo de julgamento de valor que enunciaria as normas gerais do belo (ver cânone estético);
  • a estética assumiu características também de uma metafísica do belo, que se esforçava para desvendar a fonte original de todas as belezas sensíveis: reflexo do inteligível na matéria (Platão), manifestação sensível da ideia (Hegel), o belo natural e o belo arbitrário (humano), etc.
Mas este caráter metafísico e conseqüentemente dogmático da estética transformou-se posteriormente em uma filosofia da arte, onde se procura descobrir as regras da arte na própria ação criadora (Poética) e em sua recepção, sob o risco de impor construções a priori sobre o que é o belo. Neste caso, a filosofia da arte se tornou uma reflexão sobre os procedimentos técnicos elaborados pelo homem, e sobre as condições sociais que fazem um certo tipo de ação ser considerada artística. Para além da obra já referida de Baumgarten - infelizmente não editada em português -, são importantes as obras Hípias Maior, O Banquete e Fedro, de Platão, a Poética, de Aristóteles, a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant e Cursos de Estética de Hegel.

Estéticas na história e na filosofia

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Embora os pensadores tenham ponderado a beleza e a arte por milhares de anos, o assunto da estética não foi totalmente separado da disciplina filosófica até o século XVIII.

Grécia antiga

Sócrates um dos mais notórios pensadores gregos foi um dos primeiros a refletir sobre as questões da estética. Nos diálogos de Sócrates com Hípias, há uma refutação dos conceitos tradicionalmente atribuídos ao belo, ele não irá definir o que é belo julgando-se incapaz de explicar o belo em si. Platão entendeu que os objetos incorporavam uma proporção, harmonia, e união, buscou entender estes critérios. O belo para Platão estava no plano do ideal, mais propriamente a ideia do belo em si, era colocada por ele como absoluto e eterno, não dependeria dos objetos, ou seja, da materialidade, era a própria ideia de perfeição, estava plenamente completo, restando ao mundo sensível apenas a imitação ou a cópia desta beleza perfeita. Platão dissociava o belo do mundo sensível, sua existência ficava confinada ao mundo das ideias, associando-se ao bem, a verdade, ao imutável e a perfeição. Para Platão somente a partir do ideal de beleza suprema é que seria possível emitir um juízo estético, portanto definir o que era ou não belo, ou o que conteria maior ou menor beleza. Por estar fora do mundo sensível o belo platoniano está separado também da intromissão do julgamento humano cujo estado é passivo diante do belo. Ele estabelecia uma união inseparável entre o belo, a beleza, o amor e o saber. O belo em Platão serviria para conduzir o homem à perfeição, ao qual restaria a cópia fiel e a simulação, estas concepções filosóficas vão permear a arte grega e ocidental por um longo período, até o século XVIII, com momentos históricos de maior ou menor ênfase no fazer artístico.

Aristóteles - O estagirita
Aristóteles, discípulo de Platão, ao contrário de seu mestre, concebeu o belo a partir da realidade sensível, deixando este de ser algo abstrato para se tornar concreto, o belo materializa-se, a beleza no pensamento aristotélico já não era imutável, nem eterna, podendo evoluir. Aristóteles dará o primeiro passo para a ruptura do belo associado à ideia de perfeição, trará o belo para a esfera mundana, colocará a criação artística sob a égide humana, já não mais separado do homem mas intrínseco a ele. Com Aristóteles abrem-se às perspectivas dos critérios de julgamento do fazer artístico, conferindo ao artista a possibilidade de individuação. O belo aristotélico seguirá critérios de simetria, composição, ordenação, proposição, equilíbrio. As concepções do belo de Aristóteles ficam por um longo período esquecidas, sendo somente retomadas ao final da Idade Média.

Modernidade

Filosofia do belo na arte é a designação aplicada a partir do século XVIII, por Baumgarten, à ciência filosófica que compreendeu o estudo das obras de arte e o conhecimento dos aspectos da realidade sensorial classificáveis em termos de belo ou feio. Os conceitos do belo seguem o rumo da apreciação, da fruição e da busca pelo juízo universal, pela verdade última de sua definição. A revolução francesa traz novos ares ao mundo, e o engatinhar da revolução industrial traz novas luzes ao pensamento humano. Vários filósofos se preocuparam com o belo durante este período, entre eles cita-se Hume e Burke, que deixaram, cada um contribuições valiosas na tentativa de definição dos conceitos e parâmetros do belo, mas nenhum foi tão importante quanto Kant, cuja contribuição foi decisiva nas tentativas de explicação do belo.
A maioria dos autores das teorias estéticas tomam Kant como referencial principal em suas obras: após Kant apresentar suas teorias, nenhum outro filósofo depois dele deixou de o citar - refutando ou concordando, todos o mencionam. Os conceitos sobre o belo elaborados por Kant transformaram em definitivo o juízo estético. Kant irá mudar as bases do juízo estético ocidental que até ele vinculavam as obras de arte e a beleza natural ao sobrenatural. A beleza até então era algo que a razão não poderia compreender, a arte era quem transpunha o incognoscível absoluto e pelos símbolos trazia o ideal para o real. O que tornava a arte apreciável até então era o prazer do deleite com o belo, a influência moral que exercia sobre natureza humana. Para Kant, o juízo estético é oriundo do sentimento e funciona no ser humano como intermediário entre a razão e o intelecto. A função da razão é prática já função do intelecto é elaborar teorias sobre os fenômenos. Os fenômenos que são percebidos pelos sentidos através da intuição, transformam-se em algo compreensível o que permitiria a emissão de um juízo estético. Tal juízo não conduziria a um conhecimento intrínseco do objeto, portanto não teria um valor cognitivo, nem tampouco seria um juízo sobre a perfeição do objeto ou fenômeno, sendo correto independentemente dos conceitos ou das sensações produzidas pelos objetos. Os sentimentos de prazer e desprazer em Kant estão ligados as sensações estéticas e pertencem ao sujeito, são estes sentimentos subjetivos, não lógicos que emitem o conceito do belo, são eles que formam o juízo do gosto. A percepção de um objeto ou fenômeno que instiga a sensação de prazer provoca a fruição ou gozo e a essas sensações damos os nomes de belo, bonito e beleza. A questão do belo seria então algo subjetivo, e por ser subjetivo é livremente atribuído, sem parâmetro, fundado na “norma pessoal”. São os sentimentos oriundos das sensações agradáveis que emitem o juízo do belo, induzindo o desejo de permanecer usufruindo tais sensações. O interesse imediato diante das sensações prazerosas é a continuidade. Kant afirmava ser impossível encontrar regras teóricas para a construção de belos objetos. E é impossível porque, quando julgam que um objeto se inclui em certo princípio geral ou se conforma com esta ou aquela regra, estam fazendo um juízo intelectual dessa ordem, não podendo “inferir que ele é belo”. A beleza não dependeria de provas intelectivas, mas sim do senso de prazer gerado. O prazer é a ligação principal que Kant faz com o belo, por ser um prazer subjetivo, ele é desprovido do sentido de conhecimento, não está vinculado à realidade de um objeto ou fenômeno, o prazer que o belo proporciona vem apenas das representações sensivelmente apreendidas.
Hegel foi outro grande filósofo que, após Kant, dedicou-se ao estudo do belo. Hegel parece concordar de certa maneira com Platão, ao abordar a questão do ideal e do belo. Sobre a beleza Hegel diz que “a beleza só pode se exprimir na forma, porque ela só é manifestação exterior através do idealismo objetivo do ser vivente e se oferece à nossa intuição e contemplação sensíveis” Uma profunda análise sobre o ideal é um dos focos de Hegel, ao ideal ele atribui todos os conceitos morais e espirituais, pertencentes à natureza humana que são transfigurado pelo imaginário em formas atribuídas a deuses ou seres superiores a si mesmo, tal ideal segundo ele seria uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida cotidiana e ao mesmo tempo projetar para si mesmo exemplos a serem seguidos. A beleza funciona para Hegel como a expressão máxima do Ideal. O ideal clássico “só representa o modo de ser do espírito, o que nele há de sublime funde-se na beleza, é diretamente transformado em beleza”. Para Hegel o belo é algo espiritual, para definir o belo como algo espiritual, parte da premissa da inexistência material do belo, colocando-o na categoria de conceito sem realidade física, portanto, pertencente ao plano espiritual, ao plano da imaginação do sujeito. Hegel definiu a estética como a ciência que estuda o belo, conferindo a estética à categoria de ciência filosófica. Sua análise do belo é basicamente em cima do belo artístico, relegando o belo natural a um segundo plano. “para justificar esta exclusão, poderíamos dizer que a toda a ciência cabe o direito de se definir como queira”. Uma análise detalhada das diferenças do belo artístico e do belo natural, foi feita por Hegel, privilegiando o belo artístico por considerá-lo superior, tecendo explicações sobre tal superioridade. Hegel vai tomar como base o belo em si, e deixa de lado os objetos belos, que segundo ele são tidos como belos por motivos diversos. “Não nos perturbam, portanto, as oposições entre os objetos qualificados de belos: estas oposições são afastadas, suprimidas(…). Nós começamos pelo belo como tal”. Acaba por determinar que “só é belo o que possui expressão artística”.[3]

Referências

  1. Abbagnano, Nicola. Diccionário de Filosofia. Ciudad del México, Fondo de Cultura Económica. 1966 p. 452a
  2. Bayer, Raymond, História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, Tradução: José Saramago, 1995, pág. 27.
  3. HEGEL, George W. F. Curso de estética: o belo na arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Bibliografia

Portal A Wikipédia possui o: Portal de Filosofia
  • Aristóteles. Poética. São Paulo. Ed. Ars Poética. 1993.
  • Burke, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. Campinas: Papirus, 1993.
  • Hegel, G. W. Cursos de Estética. São Paulo: Edusp, 2001/06. 4 vols.
  • Hegel, George W. F. Curso de estética: o belo na arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • Jimenez, Marc. Estética, o que é estética. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1999.
  • Kant, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.
  • Osborne, Harold. Estética e teoria da arte. São Paulo: Cultrix, 1993.
  • Suassuna, Ariano. Iniciação á Estética. Rio de Janeiro. Ed. José Olympio, 2004

Ver também

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Odisseia

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'Odisseia'
Beginning Odyssey.svg Início da Odisseia em seu idioma original
Autor (es) Homero
Título em Portugal Odisseia
Título no Brasil Odisseia
País Grécia Antiga
Género Poesia épica
Editora Várias
Lançamento século VIII a.C.
Odisseia (em grego: Οδύσσεια, transl. Odýsseia) é um dos dois principais poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero[1]. É, em parte, uma sequência da Ilíada, outra obra creditada ao autor, e é um poema fundamental ao cânone ocidental moderno, e, historicamente, é a segunda - a primeira sendo a própria Ilíada - obra existente da literatura ocidental, tendo sido escrita provavelmente no fim do século VIII a.C.[1], em algum lugar da Jônia, região da costa da Ásia Menor então controlada pelos gregos, e atualmente parte da Turquia.[2] O poema relata o regresso do protagonista, um herói da Guerra de Troia, Odisseu (ou Ulisses, como era conhecido na mitologia romana). Como se diz na proposição, é a história do “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a acrópole sagrada de Troia, que viu cidades e conheceu costumes de tantos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”. Odisseu leva dez anos para chegar à sua terra natal, Ítaca, depois da Guerra de Troia, que também havia durado dez anos.[3] A obra continua a ser lida por todo o mundo, tanto no original, escrito no chamado grego homérico, como em inúmeras traduções para os idiomas atuais. O poema foi composto originalmente seguindo a tradição oral, por um aedo, provavelmente um rapsodo, e destinava-se mais a ser cantada do que lida.[4] Os detalhes das antigas performances orais da Odisseia, e de sua conversão a uma obra escrita, continuam até hoje a inspirar debates entre os estudiosos. A obra, que abrange 12.110 versos no hexâmetro dactílico.[5] foi escrita num dialeto poético, que não pertence a qualquer região definida. A linguagem homérica combina locais e tempos numa linguagem à parte, feita para a epopeia.Nunca foi falada por ninguém. Foi-o somente pelos poetas[6]. A trama da narrativa, surpreendentemente moderna na sua não-linearidade, apresenta a originalidade de só conservar elementos concretos, directos, que se encadeiam no poema sem análises nem comentários. A análise psicológica, a análise do mundo interior, não era ainda praticada. As personagens agem ou falam; ou então, falam e agem. E falam no discurso directo, diante de nós, para nós – preparando, de alguma forma, o teatro[6]. Os eventos narrados dependem tanto das escolhas feitas por mulheres, criados e escravos quanto dos guerreiros. A influência homérica é clara em obras como Os Lusíadas, de Camões, ou o Ulysses, de James Joyce, mas não se limita aos clássicos. As aventuras de Ulisses, a superação desesperada dos perigos, nas ameaças que lhe surgem na luta pela sobrevivência, são a matriz de grande parte das narrativas modernas, desde a literatura ao cinema[7]. Em português, bem como em diversos outros idiomas, a palavra odisseia passou a referir qualquer viagem longa, especialmente se apresentar características épicas.

Índice

Estrutura

A Odisseia se inicia in medias res, com sua trama já inserida no meio de uma história mais ampla, e com os eventos anteriores sendo descritos ou através de flashbacks ou de narrativas dentro da própria história. O dispositivo foi imitado por diversos autores de épicos literários posteriores, como por exemplo Virgílio, na Eneida, bem como poetas modernos como Alexander Pope em The Rape of the Lock. A acção está repartida em três tempos principais: situação de Penélope e Telémaco em Ítaca e viagem de Telémaco; chegada de Ulisses ao país dos Feaces, onde narra as suas aventuras (recuo da acção, em vários anos); regresso de Ulisses a Ítaca e morte dos pretendentes [8]. Perante a presunção da morte de Ulisses, a sua esposa Penélope e o seu filho, Telêmaco são obrigados a lidar com um grupo de insolentes pretendentes, os Mnesteres (em grego: Μνηστῆρες) ou Proci, que competem pela mão de Penélope em casamento.Telêmaco tenta assumir o controlo da sua casa e aconselhado por Atena, viaja em busca de notícias do seu pai desaparecido. A cena então muda: Odisseu é cativo da bela ninfa Calipso, com quem ele passou sete dos dez anos em que esteve perdido. Após ser libertado pela intercessão de sua padroeira, Atena, ele parte. Porém, a sua jangada é destruída por Posídon, furioso por Odisseu ter cegado o seu filho, Polifemo. Quando Odisseu alcança a praia de Esquéria, lar dos feácios, é auxiliado pela jovem Nausícaa, de quem recebe hospitalidade; em troca, satisfaz a curiosidade dos feácios, narrando a eles - e ao leitor - as suas aventuras desde a partida de Troia. Os feácios, hábeis construtores de navios, emprestam-lhe uma embarcação para que ele regresse a Ítaca, onde recebe a ajuda do pastor de porcos Eumeu, se encontra com Telêmaco e reconquista o seu lar, reencontrando a sua esposa, Penélope e matando os seus pretendentes. Quase todas as edições e traduções modernas da Odisseia são divididas em 24 livros. Esta divisão é conveniente, porém não é original; foi desenvolvida pelos editores alexandrinos do século III a.C.. No período clássico diversos dos livros (individualmente e em conjunto) recebiam seus próprios títulos; os primeiros quatro, que se concentravam em Telêmaco, eram comumente conhecidos como a Telemaquia; a narrativa de Odisseu, no livro 9, que contém seu encontro com o ciclope Polifemo, era tradicionalmente chamada de Ciclopeia; e o livro 11, que descreve seu encontro com os espíritos dos mortos no Hades, era conhecido como Nekyia. Os livros 9 a 12, onde Odisseu reconta suas aventuras para seus anfitriões feácios eram referidos como os Apologoi, as "histórias" de Odisseu. O livro 22, no qual Odisseu mata todos os pretendentes, recebia o título de Mnesterophonia, o "massacre dos pretendentes". Os últimos 548 versos da Odisseia, que correspondem ao livro 24, são tidas por muitos acadêmicos como uma adição feita por um poeta posterior; diversas passagens dos livros anteriores parecem preparar para os eventos que ocorrem nele, portanto se de fato forem uma adição posterior, o editor responsável teria alterado algum texto antigo já existente (para as diversas visões a respeito da origem, autoria e unidade do poema, veja escolástica homérica).

Argumento

Telêmaco, filho de Odisseu, tem apenas um mês de idade quando seu pai sai para combater em Troia, numa guerra da qual ele não quer fazer parte.[9] No ponto em que a obra se inicia, já se passaram dez anos após o fim da Guerra de Troia - que por sua vez durou dez anos - Telêmaco tem 20 anos e está dividindo a casa de seu pai ausente, localizada na ilha de Ítaca, com sua mãe e uma multidão de 108 arruaceiros, "os pretendentes", cuja meta é persuadir Penélope de que seu marido está morto, e que ela deve se casar com um deles. A deusa Atena, a protetora de Odisseu, discute seu destino com Zeus, rei dos deuses, no momento em que o inimigo do herói, o deus do mar, Posídon, se ausenta do monte Olimpo. Escondida como um chefe táfio chamado Mentes, ela visita Telêmaco e o encoraja a procurar notícias de seu pai. Ele oferece sua hospitalidade, e ela pode observar o comportamento inapropriado dos pretendentes, jantando no meio de arruaças enquanto o bardo Fêmio lhes interpretava um poema narrativo. Penélope opõe-se ao tema de Fêmio, o "Retorno de Troia",[10] por lembrá-la de seu marido desaparecido, porém Telêmaco refuta suas objeções. Naquela noite, Atena, disfarçada como Telêmaco, encontra um navio e uma tripulação para o verdadeiro Telêmaco. No dia seguinte, este reúne uma assembleia de cidadãos de Ítaca, para discutir o que deveria ser feito com os pretendentes. Acompanhado por Atena (agora disfarçada como seu amigo, Mentor), ele parte para a Grécia continental, onde é recebido por Nestor, o mais respeitável dos guerreiros gregos de Troia, já de volta a seu lar, em Pilos. De lá, Telêmaco parte por terra, acompanhado pelo filho de Nestor, para Esparta, onde encontra Menelau e Helena, já reconciliados; estes descrevem como retornaram à Grécia depois de uma longa viagem, que passou pelo Egito e, de lá, pela ilha mágica de Faros, onde Menelau encontrou o velho deus do mar Proteu, que o contou que Odisseu havia sido aprisionado pela ninfa Calipso. Telêmaco também descobre o destino do irmão de Menelau, Agamenon, rei de Micenas e líder dos gregos em Troia, assassinado logo depois de retornar ao seu lar, por sua esposa Clitemnestra e seu amante Egisto.
A obra chega então à história de Odisseu, que passou sete anos no cativeiro, na ilha de Calipso. Esta é persuadida a libertá-lo pelo deus mensageiro, Hermes, enviado por Zeus. Odisseu constrói uma jangada e recebe roupas, comida e bebida de Calipso; acaba naufragando, no entanto, por obra de Posídon, e é obrigado a nadar até a ilha de Esquéria onde, nu e exausto, ele se esconde numa pilha de folhas e adormece. Na manhã seguinte, desperto pelas risadas de garotas que se aproximam, vê a jovem Nausícaa, que veio com suas criadas lavar roupas à beira do mar. Odisseu pede ajuda a ela, que o encoraja a procurar a hospitalidade de seus país, Aretê e Alcínoo. Odisseu que inicialmente não se identifica, é bem recebido; permanece no local por diversos dias, participa de um pentatlo e ouve o cantor cego Demódoco executar dois poemas narrativos. O primeiro é um incidente obscuro da Guerra de Troia, a "Disputa ente Odisseu e Aquiles", enquanto o segundo é a narrativa de um caso de amor entre dois deuses do Olimpo, Ares e Afrodite. Odisseu pede então a Demódoco que retorne ao tema da Guerra de Troia, que conta sobre o Cavalo de Troia, um estratagema no qual Odisseu havia desempenhado um papel crucial. Incapaz de esconder suas emoções ao narrar o episódio, Odisseu finalmente revela sua identidade, e começa a contar a fantástica história de seu retorno à Troia.

Odisseu arrebatado pela canção de Demódoco, de Francesco Hayez, 1813-15
Após uma incursão pirática em Ismara, na terra dos cicones, Odisseu e seus doze navios são desviados do curso por tempestades. Visitam então os letárgicos Comedores de Lótus, e são capturados pelo ciclope Polifemo, do qual escapa apenas após cegá-lo com um pedaço afiado de madeira. São recebidos por Éolo, senhor dos ventos, que dá a Odisseu um saco de couro contendo todos os ventos (com a exceção do vento oeste), um presente que deveria lhe ter garantido a viagem de volta para casa; seus marinheiros, no entanto, abrem de maneira tola o saco enquanto Odisseu dormia, pensando que continha ouro; todo o vento voou para fora do saco, e a tempestade resultante mandou os navios de volta para onde haviam vindo, quando Ítaca havia acabado de aparecer no horizonte. Após pedir em vão para que Éolo o ajudasse novamente, Odisseu e seus companheiros reembarcaram nos navios e zarparam, viajando até encontrar o canibal Lestrigão. O navio de Odisseu acaba sendo o único a sobreviver ao ataque, e acaba indo parar junto à deusa-bruxa Circe, que transforma metade dos seus homens em porcos, após alimentá-los com vinho e queijo. Hermes, que havia alertado Odisseu a respeito de Circe, dá a ele uma droga chamada móli, que o fazia resistente à magia de Circe. Esta, atraída por esta resistência, apaixonou-se por ele e libertou seus homens a seu pedido. Odisseu e sua tripulação permaneceram na ilha por um ano, durante o qual festejaram, beberam e realizaram banquetes incessantes. Finalmente, os homens de Odisseu o convencem que é hora de partir para Ítaca; guiado pelas instruções de Circe, cruzam o oceano a atingem um porto na beira ocidental do mundo, onde Odisseu sacrifica aos mortos e invoca o espírito do velho profeta Tirésias para aconselhá-lo. Em seguida Odisseu encontra o espírito de sua própria mãe, que havia morrido de desgosto durante sua longa ausência; dela, descobre pela primeira vez notícias de sua própria casa e família, ameaçada pela cobiça dos pretendentes. Lá encontra também os espíritos de mulheres e homens famosos, entre eles Agamenon, que lhe informa sobre seu assassinato e lhe alerta sobre os perigos das mulheres (ver Nekyia para maiores detalhes do encontro de Odisseu com os mortos).
Ao retornar à ilha de Circe, são aconselhados por ela sobre as etapas restantes de sua jornada. Após costearem a terra das Sereias, passam por entre Cila, um monstro de muitas cabeças, e o redemoinho Caribde, e chegam à ilha de Trinácia. Lá, os homens de Odisseu ignoram os avisos de Tirésias e Circe, e abatem o gado sagrado do deus-sol, Hélio; este sacrilégio lhes traz como punição um naufrágio, onde todos morrem afogados, com a exceção de Odisseu, que consegue chegar à ilha de Calipso, ninfa que o força a se tornar seu amante por sete anos, até que ele consegue escapar. Depois de ouvir com grande atenção a história, os feácios, marinheiros experientes, concordam em ajudar Odisseu a voltar para casa. Deixam-no à noite, enquanto está em sono pesado, num porto escondido em Ítaca. Lá ele consegue chegar à casa de um de seus antigos escravos, o pastor de porcos Eumeu. Odisseu se disfarça como um mendigo vagrante, para descobrir como estão as coisas em sua residência. Após jantar, conta aos trabalhadores da fazenda uma história fictícia sobre si; afirma ter nascido em Creta, e ter liderado um grupo de cretenses que lutaram ao lado dos gregos na Guerra de Troia, e que havia passado sete anos na corte do rei do Egito, e depois naufragado na Tesprócia, de onde teria vindo a Ítaca. Enquanto isso, Telêmaco navega para casa, vindo de Esparta, fugindo de uma emboscada preparada pelos pretendentes. Desembarca na costa de Ítaca e se dirige à casa de Eumeu; lá, pai e filho se encontram, e Odisseu se identifica para o filho (embora ainda não para Eumeu), e decidem que os pretendentes devem ser mortos. Telêmaco chega à sua casa primeiro; acompanhado por Eumeu, Odisseu retorna ao seu lar, ainda fingindo ser um mendigo, e presencia as arruaças dos pretendentes. Encontra-se com Penélope, e testa suas intenções com uma história inventada sobre seu nascimento em Creta onde, segundo ele, teria se encontrado com Odisseu. Ao ser interrogado, acrescenta que também havia estado recentemente em Tesprócia, onde fora informado sobre as viagens recentes de Odisseu. Sua identidade é descoberta pela caseira, Euricleia, quando ela lava seus pés e descobre uma antiga cicatriz que Odisseu tinha, fruto de uma caçada a javalis; ele a faz jurar segredo. No dia seguinte, instigada por Atena, Penélope convence os pretendentes a competir por sua mão, numa competição de arco-e-flecha, utilizando o arco de Odisseu - que participa da competição, ainda disfarçado, e, após ser o único com força suficiente para dobrar o arco, a vence. Odisseu passa então a disparar flechas contra os pretendentes; com a ajuda de Atena, Telêmaco, Eumeu e Filoteu, um pastor, todos são mortos; Odisseu ainda executa, juntamente com Telêmaco, doze das criadas da casa que haviam feito sexo com os pretendentes, e, após mutilá-lo, também executam o pastor de cabras Melâncio, que havia caçoado de Odisseu e o maltratado. Odisseu então finalmente se identifica para Penélope, que, hesitante, o aceita após ele descrevê-la a cama que teria construído para ela após se casarem. No dia seguinte Odisseu e Telêmaco visitam a fazenda de seu velho pai, Laertes, que também só aceita sua identidade após ver Odisseu descrever corretamente o pomar que Laertes lhe dera certa vez. Os cidadãos de Ítaca, no entanto, seguem Odisseu e Telêmaco ao longo da estrada, planejando vingar as mortes dos pretendentes, seus filhos. O líder do grupo afirma que Odisseu havia causado a morte de duas gerações de homens de Ítaca - seus marinheiros, nenhum dos quais havia sobrevivido à jornada de volta, e os pretendentes, que ele havia agora executado. A deusa Atena intervem pessoalmente, e convence ambos os lados a abandonar a vingança. Ítaca finalmente está em paz novamente, e a Odisseia é concluída.[11]

Personagens


Concílio dos deuses no Olimpo.

Ulisses e o cíclope Polifemo.

Odisseu

O traço heroico de Odisseu está em sua mētis, ou "inteligência astuta"; ele frequentemente é descrito como "Par de Zeus em Conselhos". Esta sua inteligência se manifesta no uso de disfarces e em falas e discursos enganosos. Seus disfarces podem tanto ser físicos (alterando sua aparência) como verbais, como fez ao contar para o ciclope Polifemo que seu nome era Ουτις (Oútis), "Ninguém", e fugir após cegá-lo; quando os outros ciclopes perguntaram a Polifemo o motivo de seus gritos, ele responde que "Ninguém" lhe está machucando, e os outros assumem que "Se sozinho como você está [Polifemo] ninguém usa violência sobre si, ora, não há como escapar do mal enviado pelo grande Zeus; então melhor rezar a seu pai, o senhor Posídon".[12] A falha mais evidente que Odisseu ostenta é a sua arrogância e seu orgulho, ou hubris. À medida que ele navega para longe da ilha dos ciclopes, Odisseu grita seu próprio nome, e se orgulha de que ninguém pode derrotar o "Grande Odisseu". Os ciclopes jogam então a metade superior de uma montanha sobre ele, e rezam para seu pai, o deus do mar, Posídon, dizendo que ele cegou um de seus filhos; isto enfurece o deus, o que o faz impedir o retorno de Odisseu a seu lar por muitos anos.

Casa de Odisseu

  • Odisseu (conhecido também pela forma latina, Ulisses), herói da guerra de Troia e que quer voltar para junto dos seus familiares;
  • Penélope, esposa de Odisseu, prima de Helena de Troia;
  • Telémaco, filho de Odisseu e de Penélope;
  • Laertes, pai idoso de Odisseu;
  • Eumeu, porqueiro;
  • Euricleia, ama de confiança de Odisseu;
  • Antinoo, um dos pretendentes o mais malvado de todos;
  • Eurimaco, um dos pretendentes que copia tudo o que Antinoo diz.

Casa dos Feácios

Marinheiros de Odisseu

Deuses intervenientes

  • Zeus rei dos deuses;
  • Atena deusa da sabedoria (a favor de Odisseu);
  • Circe deusa feiticeira, filha de Hélios (a favor de Odisseu);
  • Poseidon deus dos mares (maior inimigo de Odisseu);
  • Éolo deus dos ventos, que recebe Odisseu e seus amigos em sua ilha;
  • Hermes mensageiro dos deuses;
  • Hélios deus do Sol, de quem os companheiros de Odisseu mataram o gado;
  • Calipso ninfa marinha da morte que se apaixona por Odisseu;
  • Leucótea deusa marinha que salva Odisseu de um naufrágio.

Monstros e criaturas

  • Cila, uma linda mulher que se esconde num rochedo, de sua cintura brotam 6 cabeças de cães famintos que devoram navegadores;
  • Ciclopes, em particular Polifemo, filho de Possêidon e da ninfa Toosa;
  • Caríbdis, filha de Posídon e Gaia; Antes foi uma mulher de apetite voraz, Zeus a transformou num monstro desforme e a aprisionou no fundo do mar, de onde ele abre a boca e suga as águas em imensos redemoinhos;
  • Sereias, ninfas do mar, filhas da deusa Terpsícore e do rio Aqueloo, atraem os navegantes para sua ilha com um canto magnífico e depois os devoram;
  • Lotófagos ("Comedores de Lótus"), povo fantástico que vivem próximo as regiões da Líbia na África e se alimentam somente de flores.
  • Lestrígones, ou Lestrigão (lestrigões) que habitavam a ilha dos Lestrigões

Geografia da Odisseia


Mapa da Grécia Homérica
Os eventos na sequência principal da Odisseia (excluindo-se a narrativa de Odisseu) se dão no Peloponeso e naquelas que são atualmente chamadas de ilhas Jônicas. Existem controvérsias quanto à real identificação de Ítaca, terra natal de Odisseu, que pode ou não ser a mesma ilha que é atualmente chamada pelos gregos de Ithake. As viagens de Odisseu narradas aos feácios, e a localização da própria ilha destes, Esquéria, apresentam problemas geográficos ainda mais fundamentais aos estudiosos: tanto acadêmicos antigos quanto modernos dividem-se quanto à existência ou não dos lugares visitados por Odisseu depois de Ismaros e antes de seu retorno à Ítaca.

Traduções

No Brasil, há três traduções poéticas publicadas, cada uma com critérios próprios de tradução. A primeira é de Manuel Odorico Mendes, do século XIX (publicada entretanto, somente em 1928), que, seguindo a tradição épica em português, emprega o decassílabo, porém branco. A tradução é marcada pela concisão (o número de versos da tradução é menor do que o do original), preciosismo lexical, estruturas sintáticas incomuns e neologismos - sobretudo para traduzir os epítetos gregos, latinizando-os ou somente transliterando-os, como em "Aurora dedirrósea" [Aurora de dedos róseos]. Outra característica (na verdade, comum até sua época) é a substituição dos nomes dos deuses gregos pelos correspondentes latinos: Zeus, por Júpiter, Posêidon por Netuno, Atena por Minerva, Odisseu por Ulisses etc. Sua tradução foi reeditada pela EdUsp, na coleção "Texto e Arte", com organização, notas suplementares e prefácio de Antonio Medina Rodrigues Eis o proêmio traduzido por Odorico Mendes:
Canta, ó Musa, o varão que astucioso
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima, 
Viu de muitas nações costumes vários. 
Mil transes padeceu no equóreo ponto, 
Por segurar a vida e aos seus companheiros a volta; 
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos, 
Ao claro Hiperiônio os bois comido, 
Que não quis para a pátria alumiá-los. 
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra
A segunda tradução, do século XX (publicada originalmente ná década de 1960), é de Carlos Alberto Nunes, cujo critério foi transpor o metro original do poema (hexâmetro dactílico) para o português, resultando num verso de dezesseis sílabas poéticas, cujo ritmo é a sequência de seis grupos ("pés") de sílabas, sendo cinco deles compostos, cada um, por uma sílaba tônica e duas átonas, e o sexto grupo composto, em geral, de uma tônica e uma átona, no seguinte esquema: ó o o | ó o o | ó o o | ó o o | ó o o | ó o . A tradução é editada pela Ediouro, porém em uma versão revisada por Marcus Reis Pinheiro (a qual distorce o esquema métrico em alguns versos, devido a essa revisão), e também pela editora Hedra, mas esta com o texto original. Eis o proêmio traduzido por Carlos Alberto Nunes (o negrito marca as tônicas):
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhalhas sagradas de Troia; 
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes, 
como no mar padeceu sofrimentos imeros na alma, 
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta. 
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse, 
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas.
Loucos! que as vacas sagradas do Sol Hiperiônio comeram. 
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno. 
Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras. 

Em 2011, Trajano Vieira, seguindo os passos de Haroldo de Campos, publicou sua tradução (ou transcriação) da Odisseia, tendo como critério resgatar a sonoridade do poema grego e sua complexidade lexical. Utiliza-se do dodecassílabo (mas com acentuações variáveis: ora na 6ª e 12ª sílabas, ora na 4ª, 8ª e 12), neologismos e certa quantidade de palavras rebuscadas. A edição, publicada pela Editora 34, é bilíngue e ainda contém índice onomástico completo, mapas, posfácio do tradutor, informações sobre métrica e critérios de tradução, dados biográficos do autor, bibliografia sugerida, excertos da crítica, sumário dos 24 cantos e um instigante ensaio do escritor Italo Calvino. Há também a tradução de Donaldo Schüler, editada pela L&PM em três volumes. Não sendo propriamente poética (apesar de dispor o texto em versos), utiliza-se ainda de um vocabulário mais coloquial. Eis seu proêmio:
O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos 
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra. 
Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No 
mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração, empenhado em 
salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros. Mas 
não conseguiu contê-los, ainda que abnegado. Pereceram. 
vítimas de suas presunçosas loucuras. Crianções! Forraram  
a pança com a carne das vacas de Hélio Hipérion. Este os 
privou, por isso do dia do regresso. Das muitas façanhas, 
Deusa, filha de Zeus, conta-nos algumas a teu critério. 
Em Portugal, foi publicada pela editora Cotovia, em 2003, a tradução feita por Frederico Lourenço, que objetiva uma maior literalidade e, para tal, ele empregou versos livres. Sua tradução também foi recentemente publicada no Brasil, pela Companhia das Letras (Clássicos Penguin). Eis sua tradução do proêmio:
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, 
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol — e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

Referências

  1. a b GLEESON-WHITE, Jane. 50 Clássicos: que não podem faltar na sua biblioteca. 1 ed. Campinas: Verus, 2009. 276 p. 1 vol. vol. 1. ISBN 978-85-7686-061-7
  2. Introdução de D.C.H. Rieu à Odyssey (Penguin, 2003), p. xi.
  3. O cão de Odisseu, Argos, morre autik' idont' Odusea eeikosto eniauto ("vendo Odisseu novamente no vigésimo ano"), Odyssey 17.327; cf. also 2.174-6, 23.102, 23.170.
  4. Introdução de D.C.H. Rieu para a tradução em inglês da Odisseia (The Odyssey, Penguin, 2003), p. xi.
  5. Fox, Robin Lane (2006), The Classical World: An Epic History from Homer to Hadrian, Basic Books, p. 19, ISBN 046502496
  6. a b Romilly, 2001
  7. Lourenço, 2003
  8. Gonçalves, 1997
  9. Odisseia, livro XIV.
  10. Este tema já existiu na forma de um épico escrito, Nostoi, já perdido.
  11. Descrição baseada originalmente em Dalby, Andrew(2006), escrito(a) em New York, London,', Norton, ISBN 0393057887 pp. xx-xxiv.
  12. A partir da tradução em inglês da Odisseia feita por Richmond Lattimore [Livro 9, pág. 147/8, versos 410 - 412]

Bibliografia

  • HOMERO. Odisseia. Trad. Odorico Mendes; org. Antônio Medina Rodrigues, pref. Haroldo de Campos. São Paulo: Ars Poetica / EDUSP, 2000.
  • HOMERO. Odisseia. Trad. Carlos Alberto Nunes; rev. Marcus Rei Pinheiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
  • HOMERO. Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa: Livros Cotovia, 2003.
  • HOMERO. Odisseia I: Telemaquia. Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2007.
  • HOMERO. Odisseia II: Regresso. Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2007.
  • HOMERO. Odisseia III: Ítaca. Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2007.
  • Gonçalves, Maria Isabel Rebelo, Épica, Épicas, Épica Camoniana, Lisboa, Cosmos, 1997.
  • Romilly, Jacqueline, Homero, Introdução aos Poemas Homéricos, Lisboa, Edições 70, 2001

Ver também

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Ligações externas

  • Odisseia no Perseus Project (em grego clássico). O site, além de conter diversas traduções paralelas para o inglês, permite que o usuário confira a tradução de palavra por palavra, apenas clicando sobre elas.
  • Odisseia em português (adaptação em prosa). Adaptação em prosa traduzida em português para ser lida online.
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