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quarta-feira, 19 de abril de 2017

QUE A NOSSA VIDA SEJA UM ETERNO CARNAVAL. BRUNA GROTTI

O Carnaval acabou. A fantasia rasgou, a poeira baixou, o folião sossegou. A rua, que até ontem estava tomada por palhaços, ciganas, piratas e Madonnas, hoje se inunda da nada poética poeira que os encanamentos vomitam por aí. As casas, que até ontem eram cerveja e papo toda a madrugada e sono e sexo toda a tarde, hoje são despertadores que, sem gentileza, cospem seus moradores das camas. O ócio, que até ontem era lei, hoje é crime. Vai trabalhar, vagabundo.
E a gente vai. Com medo, mas vai. Afinal, quem é que vai amparar o arlequim que mora dentro de nós? Quem é que vai enxugar as lágrimas do nosso pierrot? Quem é que vai contar pra nossa colombina que ela é livre pra dançar? Sem o Carnaval, a gente volta para a insuportável sina de ser quem o mundo quer que a gente seja. Um bom homem de negócios. Uma boa engenheira. Um jornalista dedicado. Uma advogada exemplar.
Alguém cheio. De compromissos, de problemas, de tristezas. Que geralmente são mascarados aos finais de semana. Uma cervejinha aqui, uma baladinha ali: bocas raivosas trocando saliva. Um bom rodízio, um bom restaurante: bocas raivosas mastigando pedaços de carne. E por uns minutos, a gente chega a achar que está tudo bem. Afinal, a gente tem um bom emprego. Uma boa casa, com um bom cachorro e bons filhinhos para pentear antes de irem para a escola. Uma boa família, com uma mãe que lava, passa e cozinha, enquanto o pai se senta no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes – e a Itaipava na mão –, esperando a morte chegar.
Mas surpreendentemente, quando o domingo anoitece e a impiedosa abertura do Fantástico ressoa pelas TVs país afora, a gente percebe que não está tudo bem. O coração aperta. A gente prefere que chegue o juízo final à manhã de segunda-feira. Porque, no fundo, a gente sabe que a felicidade é uma doutora com agenda disponível apenas entre as 18h de sexta e as 23h de domingo. A gente sabe que os próximos cinco dias vão ser infernais – pelo menos das 9h às 18h. E a gente sabe que só vai voltar a ficar tudo bem, bem mesmo, na próxima sexta, depois das 18h.
Ou nas próximas férias. Ou feriado. Ou Carnaval. Quando todo mundo sorri. Quando todo mundo ama. Quando quem é de Netflix fica na frente da TV o dia inteiro e quem é de bloquinho pula na rua o dia inteiro. Quando a gente é livre pra ser o que a gente quiser. Sem julgamento de pai ou mãe. Sem doutrinação religiosa. Sem imposição de mercado.
Que a vida não é um infinito mar de rosas a gente já sabe. E diante da impossibilidade de nadar diariamente entre pétalas, há só uma coisa que eu te desejo: que a sua vida seja um eterno Carnaval.

  CRÔNICA - Na literatura e no jornalismo, uma crónica (português europeu) ou crônica (português brasileiro) é uma narração curta, produzida essencialmente para ser veiculada na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal ou mesmo na rádio. Possui assim uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o leem.

O MENINO NO ESPELHO - FERNANDO SABINO - RELATO PESSOAL

A imagem pode conter: texto



Nesta obra, o menino Fernando, que vem a ser o próprio autor, vive todas as fantasias de sua infância por meio de uma deliciosa viagem ao passado de um dos melhores escritores brasileiros. Sabino conta suas memórias, intercalando fatos reais e imaginários, histórias mirabolantes de um menino mineiro que cresceu na Belo Horizonte de 1920. Emocionante e engraçado, o livro é um clássico que acompanha gerações.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

CAMÕES LÍRICO - O LIRISMO DE CAMÕES

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades 

(O DESCONCERTO DO MUNDO)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

EU - FLORBELA ESPANCA - LIVRO DE MÁGOAS

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar...

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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